Hoje recebi do namo um artigo publicado na Scientific American, tratando de uma pesquisa sobre propriedades anti depressivas encontradas no plasma seminal.
A princípio o artigo me interessou muito, já havia lido outras vezes sobre os benefícios do sêmen, por ser um dos líquidos mais puros do organismo, muito rico em nutrientes - há quem brinque que super faz bem pra pele Há! - e eu já ouvi falar até que existe por aí um mitológico livro de receitas só com o ingrediente "secreto".
Mas o artigo traria uma novidade.. efeitos psicológicos! Tendo em mente que a vagina é considerada pela medicina um caminho direto para absorção de medicamentos, e pensando na absorção do líquido seminal - já que nele apenas 4 ou 5% correspondem a gametas - fizeram o mapeamento de diversos componentes ansiolíticos como: "cortisol (known to increase affection), estrone (which elevates mood), prolactin (a natural antidepressant), oxytocin (also elevates mood), thyrotropin-releasing hormone (another antidepressant), melatonin (a sleep-inducing agent) and even serotonin (perhaps the most well-known antidepressant neurotransmitter)".
Fiquei extasiada! Que mecanismos e recursos fantásticos a natureza tem! E descobriram ainda que não existia nenhuma literatura específica sobre os efeitos anti depressivos contidos na absorção seminal na mulher.
Foi aí que começou a cagada.
Infelizmente o artigo foi fraco e incosistente, cheio de suposições e poucos dados concretos... Na falta de literatura fica a semente plantada, que alguém venha e faça melhor!
O artigo vcs encontram aqui:
An ode to the many evolved virtues of human semen
A pesquisa original eu não consegui acesso, infelizmente.
De cara senti muita falta de acesso aos dados das pesquisas citadas. Ele começa falando de uma diferença entre a sincronia menstrual de mulheres heterossexuais e mulheres homossexuais e depois relacionando isso a uma possível relação com o contato com o sêmen. Gostaria de saber como foi feita, qual foi o grupo de controle, de onde eles tiraram essa observação... a princípio me parece apenas uma hipótese não comprovada. Até pq podemos observar esse mesmo fenômeno de sincronia menstrual entre mulheres virgens. Como saber se as lésbicas em questão não possuem relações com homens? E que as heterossexuais em questão as possuem ativamente, como provar o contato direto com o semen? Onde fica o uso de preservativo?
Gostei muito da parte onde ele fala dos componentes antidepressivos do semen, achei o objeto levantado pelos pesquisadores absolutamente válido, como disse antes, incrível não existir uma literatura maior sobre isso, e a natureza é sábia e linda, fascinante a descoberta.
Seguindo com o artigo ele cita uma pesquisa que relacionava depressão x sexo protegido/desprotegido/abstinentes
Novamente, uma pena n termos acesso a fonte, a pesquisa, aos dados, uma pena, fica muito inconsistente. Mais na frente o próprio autor vai admitir o caráter sugestivo dessa citação. Acho válido colocar que muitos fatores propiciam uma depressão. Afirmar que falta de semen propicia depressão é igual falar que tomar leite de caixinha propicia toxoplasmose. Muitas escolhas, do próprio estilo de vida (inclusive o sexual) acompanham a depressão e podem ser até sintomas dela. Ele ainda cita resultados de que mulheres promíscuas - que usam camisinha - tem tanta depressão quanto mulheres abstinentes.. Gente... desculpa mas acho q não precisa entrar muito na química corporal pra se pensar em possível infelicidade entre abstinentes e promíscuas!
Não são raras as mulheres onde a promiscuidade é na verdade um sintoma auto destrutivo. E são raras as abstinentes por opção! Além disso, vamos supor que aceitássemos esse argumento.. dizer que é 100% garantido que essas ditas promíscuas tem contato zero com semen? E o q falar de todas as virgens? Agora são potencialmente depressivas?
A pesquisa dá um loop e perde e foco... Até acredito que o semen possa (e deve mesmo!) causar um efeito psico-químico ansiolitico, anti-depressivo, esse deveria ser o objeto de estudo, mas do jeito que está sendo colocado, a felicidade feminina parece limitada a contato direto com líquido seminal. Devolvo as sugestões com sugestões: Vamos falar de amasso e seratonina, amor e seratonina, amor amor e amor muito além de plasmas seminais!
Só falta me dizer que prostitutas desprotegidas são mais felizes tbm!
Mas a pior parte pra mim foi a que fala dos estudos relativos ao contato direto do semen entre homens homossexuais. Posso dizer que acerca da escolha do não uso da camisinha entre parceiros homoeróticos já ouvi a mesmíssima coisa de mulheres heterossexuais: "Sentir o gozo do paceiro é um prazer indescritível", "me sinto mais próxima, mais entregue", etc. Mas independente disso o ponto crítico foi ler um trecho de um outro artigo que não tem NADA A VER com o que está sendo tratado nesse, colocado com toques de sarcasmo e ironia, e inclusive ridicularizado depois.
Por usar termos muito comuns a obra de Deleuze e Guattari, imagino realmente que tenha sido de surreal compreensão para os cartesianos autores desse artigo..
O trecho em questão aborda outra temática muito mais símbolica e menos biológica do que o artigo quer trabalhar. O texto fala de potencial criativo, linhas de fuga e desterritorialização, do pedacinho que tinha imagino que se tratava do potencial do ato sexual na criação do território homossexual, mediante suas dúvidas, questões, medos, anseios, verdades adquiridas (territórios) sobre o amor, sobre sexo, sobre o masculino, sobre o certo e o errado, etc. E do perigo dessa demanda simbólica no sentido de propiciar uma relação desprotegida que trás em si muitos riscos.
Eu acho que o autor precisava estudar um pouquinho mais da psicologia "pós moderna" antes de sair por aí dando Ctrl c + Ctrl v num texto que ele não entende. A colocação posterior foi nojenta e preconceituosa e eu detesto briguinha acadêmica!! Não sei qual a grande dificuldade em se aceitar a psicologia, que epistemologicamente é conhecida como um grande espaço de dispersão de saber! Ora o ser humano é pura multiplicidade!! Fica a dúvida, quem será mesmo q está se limitando? Quando resume toda a subjetividade humana a processos químicos, toda a alegria e o prazer de uma relação sexual a absorção de liquido plasmático seminal!
- Então, afirma que meninos da tribo Sambia, que ingerem semen em rituais de passagem para se masculinizar podem mesmo ter a chance de alcançar o feito por conta da testosterona, tb contida no líquido seminal. Oi??
E a mulher q ingere semen e a dita testosterona? Tb corre risco de se masculinizar??
#samba do criolo doido detected!
- Sobre o LH e o FSH serem supostos indutores de ovulação fico com o comentário perfeito postado por Minerva na própria página do artigo:
"This article refers to LH and FSH as being "distinctively female hormones", which is inaccurate and misleading at best. LH is necessary for the production of testosterone, and FSH is necessary for maturation of germ cells (which gives rise to gametes, i.e. sperm). Is it possible that LH and FSH are present in semen as a biproduct of their use in testosterone and sperm production, and the effects, if any, of LH and FSH on females is an exaptation?
Further, it is not as simple as a blast of LH and FSH to induce ovulation. There is a particular rhythmn and pattern to it (the order in which these, and *other* important hormones, are increased or decreased, and the timing of it all in a concerted effort). Hiccups in this process can cause various reproductive issues, including infertility. None of that is mentioned in this article, which simplifies the process in a grossly misleading way."
E pra fechar com chave de ouro: "Mulheres são capazes de detectar semen diferentes e possivelmente evitar uma gravidez indesejada". Essa eu n vou nem comentar...
No mais... Galera, façam amor, muito amor, pq isso todo mundo sabe que faz bem!
Se tiverem acesso a pesquisa original gostaria de ler pra ver se algum dado mais valioso e interessante ficou esquecido por lá!!
Fica a sementinha plantada e a promessa de novas pesquisas e novos dados surpreendentes da Mãe Natureza!
Beijos!!


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