Quando planejei minha fuga para Buenos Aires queria escrever todos os dias. Queria fazer aulas de dança, fotografar, queria me apaixonar, ler todos meus livros pendentes, aprender a tocar novas músicas e quem sabe, até fazer uma.
Era sede de arte, de vida. Queria um respirinho. Um respiro de todo esse redemoinho que eu sempre soube, inevitavelmente, um dia iria me pegar pelo pé e me tacar no sistema.
Depois de um ano tão intenso e cansativo, eu me sentia tão murchinha de energias, não havia nada aqui que eu quisesse estar perto. Só queria escapar de tudo. Queria acordar numa outra realidade, numa cultura onde eu não entendesse nada, queria escutar espanhol o dia inteiro, mesmo sem falar. Queria outros ares, outra vegetação, queria esquecer o feijão, mergulhar no purê, mergulhar no acaso, no aleatório.. e fiz.
Agora estou aqui, sentada no meu sofá, olho pra debaixo da mesa e sinto falta da Pecky. Ela me visitou em Buenos Aires por duas noites seguidas, e pude sentir seu afago, reconheci seu latido. Estou confusa, acho que ainda não aterrissei, minha experiência com viagens é que vc nunca volta igual. Cada onda é diferente, cada mergulho não tem retorno. Agora eu me analiso no espelho, tento perceber os sentimentos, os sonhos que tenho, tento conhecer a nova estranha dentro de mim. Quem voltou comigo de Buenos Aires, me pergunto?
Sou ainda um turbilhão de emoções e serenidade, de perfumes, fonemas, cores e horários.
Buenos Aires foi uma coisa tão linda, tão linda na minha vida.. quanta sorte e proteção tivemos!
Voltei para a maior lua cheia em 20 anos com o coração grato. Ouvindo os batuques boêmios nos jardins do MAM senti esperança em estar de volta. Um carinho em ser carioca.


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